quarta-feira, 24 de março de 2010

João Cabral de Melo Neto







João Cabral por João Cabral




MEDO DA MORTE: "Estava na casa de Rubem Braga de passagem pelo Rio, e foram lá umas moças fazer uma entrevista comigo. Eu então falei do meu pavor da morte. Aí, o Rubem Braga, que era um grande gozador, disse: ‘Você fala tanto de medo do inferno, que vão acabar criando um inferno só para você!’ Tenho medo da morte e do inferno, porque fui criado em colégio católico, com aquela mentalidade ainda antiga... Hoje, a Igreja parece estar mais liberal..."


DRUMMOND: "A poesia brasileira foi sempre preponderantemente lírica. Mesmo um poeta pouco lírico como Carlos Drummond de Andrade tem momentos de lirismo. Murilo Mendes era um lírico; Jorge de Lima era um lírico; Mario de Andrade era um lírico; Manuel Bandeira era um lírico. Drummond era o menos lírico, mas mesmo assim tem momentos de lirismo. Na literatura brasileira, Drummond foi meu grande mestre, com aquela poesia prosaica e direta. Só que ele de vez em quando caía na prosa discursiva. Eu nunca caí no discursivo. No Brasil se confunde muito poesia com lirismo. É herança dos portugueses, que são muito líricos. Mesmo Camões, um poeta épico, tem momentos de lirismo."

LIÇÃO DE TOUREIRO: "Quando fui à primeira corrida de touros, achei que não ia gostar, por causa desse negócio da morte. Mas o toureiro se expõe a tais perigos, que você acaba sentindo solidariedade. Manolete (Manuel Rodríguez Sánchez, que inventou um estilo econômico na tauromaquia) me ensinou muito em matéria de poesia, porque ele toureava de uma maneira essencial. Não dava um passo a mais. Ficava parado e o touro é que se desviava dele. O Cordobez (Manuel Benítez, El Cordobez, outro mito espanhol) tinha uma grande coragem, mas era muito espalhafatoso. Ele se ajoelhava na frente do touro e fazia essas coisas que entusiasmavam o povo, mas para os verdadeiros aficionados não surtia efeito. Manolete matou o touro que também o matou com uma única estocada, perfeita. Morreu porque para dar a estocada bem dada, você tem que se aproximar do touro e este o atingiu com o chifre direito, que rompeu a veia femoral. Tourear não é uma coisa para qualquer um. Tive um amigo que conheceu Manolete e lamentava por eu não ter sido apresentado a ele. Dizia que nunca tinha conhecido duas pessoas com tanta capacidade para se tornarem amigas como nós dois. E dizia que nossas personalidades eram tão parecidas que rimavam. Uma rima seca."

POESIA: "Poesia é conhecimento. Inspiração, encanto, não acredito em nada dessas coisas. Poesia é esforço, é consciência, é cultura. O sujeito não pode ser inteiramente inculto e sair escrevendo poesia, por mais inspirado que ele seja. O leitor procura sempre na poesia o gênero fácil. Quando ele encontra uma poesia que oferece alguma resistência, recua. Escrever para mim é uma coisa dificílima, porque eu não queria fazer esta poesia que todo mundo faz."

O POEMA, COMEÇO, MEIO E FIM: "A poesia vai se fazendo. Da primeira palavra à última, elas todas têm que ter um sentido. De forma que a primeira é tão difícil quanto a última. Sei quando é a última quando o poema ganha aquele corpo e eu vejo quando é o momento de concluir. Certos poemas contêm eles mesmos seu princípio e seu fim. Veja ‘O rio’ e ‘Morte e vida severina’. ‘O rio’ começa no sertão e acaba no Atlântico. Portanto, o fim dele não depende de mim. ‘Morte e vida severina’, também. O sujeito vem do sertão para Recife. O princípio já contém o fim."

FLAMENCO: "Uma vez eu estava num lugar de flamenco com uma bailarina sevilhana. Tinha um sujeito cantando e eu perguntei: ‘Te gusta este cantador?’ E ela: ‘No! No expone!’ Não se expõe, não faz o máximo. E o sevilhano quer sempre a coisa feita no máximo. Fazer no extremo, onde o risco começa."

VINICIUS DE MORAES: "Estava em Genebra e passou por lá o Vinicius de Moraes, que era muito meu amigo, e era um lírico. E Vinicius nesse tempo já estava fazendo música. O (diplomata) Alfredo Valadão organizou uma reunião na casa dele. Vinicius ia cantando e a filha do Valadão, Maria Lúcia, ia gravando. Ele cantava aquelas coisas... Bossa nova e tal, falando sempre de coração, né? No meio da gravação, se ouve minha voz, no fundo da sala, dizendo: ‘Vinicius, você não tem outra víscera para cantar?’ E ele respondeu: ‘Já vem você com seu racionalismo. Ainda hei de pôr música no ‘Poema da cabra’’. Mas ele não podia cumprir a promessa, né? E olha que ele gostava muito da minha poesia, me encorajava muito. E é um grande poeta. No fim da vida ele descambou para esse negócio de música popular por necessidade. Porque Vinicius casou muitas vezes, tinha tantas mulheres e tinha que dar pensão a todas elas. Entrou nesse negócio de música popular brasileira para ganhar dinheiro. Ele me chamava de ‘camarada diamante’ porque eu pregava uma coisa cartesiana e não caía nestas coisas de lirismo."

"LE CORBUSIANO": "Não acredito em inspiração. Nisso, sou ‘Le Corbusiano’. Acredito em trabalho. Agora, viajar, claro, abre horizontes. Se não tivesse sido diplomata, faria uma poesia completamente diferente. Pernambuco, por exemplo, eu comecei a escrever sobre Pernambuco depois que saí de lá. Este recuo é necessário. De longe, você vai lembrando de sua vida, da paisagem e consegue ver o que dá poesia."

ESCREVER SOBRE PERNAMBUCO: "Meus primeiros livros não falam em Pernambuco. Depois fui para Barcelona onde escrevi ‘Psicologia da composição’ e ‘A fábula de Anfion’, certo de que não queria escrever mais. Ler para mim era muito mais agradável do que escrever. Um dia eu cheguei no consulado e descobri na revista ‘O Observador Econômico e Financeiro’ que a expectativa de vida na Índia era de 29 anos e no Recife era de 28. E fiquei tão impressionado que escrevi ‘O cão sem plumas’, que é o meu primeiro livro sobre Pernambuco. Aí Pernambuco não me largou mais."

MÚSICA: "Eu ouço bem, mas não presto muita atenção a nada do que ouço. Só presto atenção lendo, olhando. Por isso a pintura e a arquitetura tiveram uma grande influência sobre mim, e a música não teve."

A CRÍTICA E O DESEJO DE SER CRÍTICO: "Minha poesia é uma poesia difícil, de forma que muitas vezes o crítico se serve dela para brilhar. Queria ser crítico na adolescência, mas vi que não tinha experiência nem cultura para isso."





2 comentários:

  1. ler João Cabral: MARAVILHA!
    Além de uma aula, tive um grande prazer em ler essa postagem.
    Abraços.

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